Pompoarismo - O Poder Milenar

 

Eleve sua vida sexual ao próximo nível, Pompoarismo O Poder milenar da Vagina.

A história que nossa amiga Marcela nos contou em 1997 sempre ficou na minha cabeça como uma aventura incrível. Marcela tinha acabado de chegar de uma viagem pela Ásia e, na sua passagem pela capital da Tailândia, Bangcoc, acabou indo parar dentro de uma casa de pompoarismo, antiga técnica oriental de contração e relaxamento dos músculos vaginais. Lá ela assistiu, ao vivo, ao famoso Ping-Pong Show.

A aventura ganhou vida quando compramos nossa passagem para visitar a Tailândia em julho deste ano. Antes, fui pesquisar o assunto na web. E fiquei preocupado: não achei no “deus Google” nenhuma imagem de mulheres propriamente em ação, mas, ao contrário, dezenas de depoimentos de ciladas e roubadas, gente que foi cobrada a mais, cercada pelos cafetões e teve de entregar todo o dinheiro que tinha.

Ou do sujeito que pagou uma conta astronômica, ou de outro que saiu correndo pelas escadarias das casas para não pagar a tal exit fee (a taxa de
saída). Resumo: a brincadeira podia acabar mal. Passei dias estudando o assunto até que mandei um e-mail para Mark, um amigo holandês que mora em Bangcoc e me aplicou sem dó uma nova dose de desilusão. “Esqueça. Vai ser impossível vocês conseguirem fotografar o show. Prostituição aqui é business sério.”

    
Mark não fala sem razão. Segundo recente pesquisa da Universidade da Tailândia, mais de três milhões de pessoas, de uma população total de 65 milhões, vivem da indústria do sexo. Um negócio que movimenta bilhares de dólares e que viu, só em 2009, seis milhões de turistas estrangeiros passar por Patpong, o bairro da luz vermelha de Bangcoc, considerado a maior zona do mundo. Um mercado que eclodiu como cogumelos durante a Guerra do Vietnã, com os soldados americanos em busca de diversão, e que se multiplicou após a invenção do Viagra. Os shows de pompoarismo, que acontecem nas casas de stripper ou nos go-go bars de Patpong, são considerados uma das grandes atrações desta indústria, um “must see” do turismo sexual tailandês.

A maior zona do mundo
Nosso avião aterrissa em Bangcoc, a capital do país com dez milhões de habitantes. O skyline impressiona. O olho direito enxerga templos seculares; o esquerdo, prédios modernos de alturas estelares. Estamos num hotel de luxo às margens do Chao Phraya, o pai de todos os rios da antiga Veneza da Indochina, com seus canais, mercados coloridos e casas flutuantes. Tem barulho, trânsito, poluição. Em cada esquina, imagens de Buda douradas, monges com batas cor de açafrão, fadas tailandesas, safadas tailandesas.

    
Ao sair do hotel, perguntamos ao concierge se pode nos indicar uma casa de Ping-Pong Show. Com ar indignado, ele diz que esses shows são proibidos pela lei e que não pode me indicar nada. Ignorando a negativa, saímos pela rua. Vinte minutos depois, chegamos a Patpong. Um mar de neons com dezenas de casas de show, sex shops, bares e restaurantes. Os policiais estão nas duas avenidas paralelas, mas não demonstram se importar com os nomes sugestivos de Super Pussy, Super Girls ou Mega Pussy que ornam as entradas dos estabelecimentos. E nem com as strippers e go-go girls que rebolam nos postes em palcos elevados, para quem quiser ver, no meio da rua. Elas olham no olho e acenam, provocativas. Umas estão vestidas de caubói, outras de aeromoça, outras só de biquíni. Nas melhores casas há mulheres realmente gostosas, a maior parte delas bem novinha.

Tentamos fotografá-las, mas somos impedidos pela mão espalmada de um segurança. Carol se esconde entre as barracas dos camelôs e tenta roubar algumas imagens com a teleobjetiva. A cada passo, somos abordados por homens com cardápios ilustrados na mão, vendendo shows de Ping-Pong. “Quais vocês querem ver? O da banana? Da flor? Vocês escolhem: só custa US$ 5 por show, sem extras.” Eles nos seguem até o final de seu território, onde uma nova abordagem começa. Damos a volta no quarteirão. Nas ruinhas paralelas, mais escuras e sem camelôs, a prostituição é ainda mais exposta. Fingimos interesse, mas apelamos para o tradicional: “Hoje não, amanhã quem sabe.”

    
Damos a segunda volta. E escutamos as propostas até finalmente decidirmos pela única casa que não nos abordou. No caixa, está uma mulher. Seu nome é Suzan. Ela é a hostess do House 66. A casa tem nome na porta e ingresso de entrada para o show. “Custa US$ 20 por pessoa para ver todos os shows, com direito a duas cervejas”, diz Suzan. Parece honesto. Mas pode fotografar? “Claro que não. O chefe me mata e te mata.” Mas é nosso trabalho. “Vocês fazem o quê?” Somos jornalistas.

Nisso, chega uma distinta dona de roupão azul de seda, toda simpática, praticando um ótimo inglês. “Vamos subir?”, ela pergunta. “Eles querem fotografar”, alerta Suzan. “Ah é? O patrão não libera. Mas se vocês quiserem posso ir amanhã com vocês num motel e faço ao vivo.” Quanto você cobra? “Cobro US$ 100, e uma condição. Vocês têm que assistir ao show agora.” Como é seu nome? “Opal.”

Subimos as escadas com um friozinho na barriga de mãos dadas com Opal. Música alta, gelo seco, paredes em tons rosa, neons, garrafas de uísque nas paredes. Umas 11 mulheres estão sentadas num longo sofá de couro, como se fossem um time de futebol. Quatro homens tailandeses, com pinta de cafetão e cara de mau, fumam cigarro e jogam sinuca. Eles nos olham de soslaio sem dar muita bola. Elas nos levam para diante do palco e nos acomodam num sofá na primeira fila.

    
Muda a música. A primeira mulher sobe no palco, tira a calcinha, fica só com um baby doll. A música faz clima de suspense, ela vira de quatro e apaga as velas de um candelabro, uma a uma, com o sopro de sua “perseguida”. Entra Opal, que abre uma garrafa com a vagina. O estalo da tampinha é alto e seco. Meu queixo cai. Outra mulher. E bolinhas de pingue-pongue voam para todos os lados, tal qual tiros de metralhadora. Mais outra: a da zarabatana que fura balões. Então era tudo verdade! O cafetão desconfia. “Você está fotografando?” “Eu? Imagine”, diz Carol. O sujeito implica. “Quero ver.” Gelei. Esperta, Carol gira o play da câmera no sentido contrário com fotos de templos e monges. O homem acredita, mas não relaxa mais o olhar. Muda a música – o show tem que continuar.

Sobe outra “santa” ao palco. Agora é a vez da banana. Deitada, a donzela usa sua força interior para lançar uma enorme banana descascada para o alto, como se lá dentro houvesse uma mola. Até que abre bem as pernas, aponta o clitóris em minha direção e lança o míssil. No reflexo, antes que a fruta se espatifasse na minha cara, espalmo a banana no ar. A arremessadora ri, sacana. Nossa amiga Opal, sem graça, traz um guardanapo para que eu me limpe.

Doze horas depois, às duas da tarde, faço figa para Opal ligar. Duas e meia, toca o celular. É ela! Zarpamos ao seu alcance rumo ao bairro da luz vermelha da capital tailandesa. Opal nos vê de longe. Ela está bem-vestida, acompanhada de uma amiga, a arremessadora maluca que me jogou a banana. Seu nome é Bel. Ofereço a ela uma bebida do Seven Eleven. Ela sorri. Opal diz que Bel foi sua professora da pompoarte e vai nos ajudar na produção sem custos extras. E nos mostra uma sacola para conferirmos se lá estão todos os artefatos do nosso showzinho particular: velas, bolas de pingue-pongue, cigarros, giletes e, claro, bananas.

Subimos as escadas escuras de um motel de paredes brancas, piso de madeira rangendo e dezenas de portinhas. Entramos no quarto. Opal está maquiada, os olhos pintados. É uma mulher interessante que já passou dos 30. Ela tira a roupa e diz. “Agora vamos ao show.” Prensa uma caneta grossa entre os lábios da vagina e escreve: “Welcome to Club 66”. A caligrafia sai perfeita.

Há quanto tempo você faz esses shows, Opal? “Há três anos.” E antes? “Era vendedora numa loja, e ganhava dez vezes menos.” Você gosta de fazer os shows? “Depende da plateia. Quando só tem gente chata, eu não curto. Quando se divertem, é legal.” Foi difícil aprender? “Alguns truques são difíceis e tem que treinar no mínimo uns seis meses com pequenas bolinhas de peso para fortalecer a musculatura pélvica.”

Ao próximo truque: Opal introduz os hashis e com eles agarra argolas do chão, colocando-as na garrafa de água. Mas são os números seguintes que impressionam. Enquanto dança, ela tira de dentro de si um fio com giletes de navalhas. Uma, duas… sete giletes penduradas no ar brilhando. Dá arrepio, mas Opal nos mostra o segredo. As lâminas ficam dentro de uma caixinha macia. Depois é a vez de tirar um colar de flores de mais de três metros. Não para de sair flores da “flor”.

O truque? Todo o colar é dobrado e guardado dentro de uma camisinha. O espetáculo seguinte, contudo, permanece um enigma. Como ela consegue abrir a tampinha de uma garrafa de cerveja com os grandes lábios se eu não consigo com os dentes? E Opal o faz com maestria. Primeiro chacoalha a garrafa, depois abre. A tampa voa longe. Opal serve o líquido espumando num copo e brinda. “Champanhe?” Pergunto se dói. “Nenhum truque machuca. Só as pernas é que ficam acabadas. Temos que fazer massagem umas nas outras no fim do dia.”

    
Nossa atriz prepara as próximas cenas. Primeiro apaga a vela com o sopro do sexo e canta. Happy birthday to you. Em seguida acende um cigarro com a bendita. Traga e solta a fumaça. O cigarro rapidinho vira bituca com a alta sucção. E eu pergunto o que seus clientes de sexo – sim, Opal também faz programas – dizem a respeito dessa sua força. “Eles não pensam, eles gemem!” Opal é divertida, deve acolher muitas almas solitárias nesse mundo de carentes. Ela fala dos truques sexuais que, com o controle dos músculos da vagina, pode fazer com um pênis. “Sugo, estrangulo, expilo, ordenho, torço e travo.”

Do papiro
A arte do pompoarismo consta de antigos papiros indianos do kama sutra e do sexo tântrico. Era ensinada às mulheres para prolongar e melhorar o prazer do parceiro, na hora do mai thuna, o ritual do sexo sagrado. Foi aperfeiçoada no Japão pelas gueixas e depois na Tailândia, onde era passada de mãe para filha, como um dote importante ao marido, até se converter no circo no qual Opal e Bel trabalham aparentemente contentes das 18 horas até às 4 horas da manhã, todos os dias. Mas as mulheres desse tipo de show, em sua maioria, são fugitivas da lavoura do arroz. Outras de países vizinhos mais pobres, como Laos, Camboja e, principalmente, Mianmar, a antiga Birmânia, de onde chegam os piores relatos: meninas vendidas aos traficantes de sexo por pais endividados pela lavoura do ópio.

Segundo a pesquisadora americana Deena Guzder, do centro de jornalismo independente Pulitzer Center, essas jovens trabalham em condições desumanas. “Ninguém é feliz jogando bolinhas de pingue-pongue da vagina 14 horas por dia.” Em seu artigo The price of sexual torture? US$ 181 a mounth, ela descreve a vida de mulheres que são obrigadas a introduzir peixes, cobras e outros bichos em seus corpos. Dezenas de ONGs de direitos humanos participam há anos da luta contra a prostituição e os shows.

O mercado do sexo na Tailândia envolve cerca de 800 mil meninas menores de idade.“A única preocupação do governo é vender o país como a terra dos sorrisos”, diz Deena. “As autoridades têm medo que o turismo diminua caso combatam a prostituição.” Aqui no quarto, porém, esse mundo cruel parece não existir. Opal conta que está estudando design e que vai montar uma fábrica de roupas sexy. “Minhas filhas vão para a universidade.” O celular dela toca. É um cliente. Ela sorri. “Esse é generoso nas gorjetas.” Ainda faltam mais dois shows: a zarabatana que fura a bexiga e as famosas bolinhas de pingue-pongue. Ela pergunta se eu quero rebatê-las. Com medo de ofender a artista, coloco-me com a raquete à disposição. Furo as primeiras tentativas, mas na última pego na veia da bolinha que explode em suas coxas. Ela grita. Eu peço desculpas. Ela ri. “Já estou acostumada com essas boladas.” Fim do show para nós. Para elas, contudo, a noite ainda vai longe.

 

Aprenda a fazer - Técnicas de Pompoarismo

 

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